Todos os seus filhos e filhas se achegaram para oferecer-lhe consolo, contudo ele recusou toda e qualquer consolação, e declarou: "Não! É em luto que descerei ao Sheol para encontrar com meu filho!" E continuou a chorar a perda de seu filho José. Gênesis 37:35
Ao ler os textos bíblicos de forma superficial talvez possamos encontrar dificuldade em entender alguns pontos. Essa passagem da venda de José por seus irmãos, a simulação de sua morte e especialmente o luto de Jacó, pode ser um desses episódios.
Se observarmos bem, em nossa ótica de leitores, tudo está acontecendo simultaneamente, e o fato de sabermos que José não estava morto, mas havia sido vendido pelos seus irmãos, talvez nos traga um certo conforto de que, de alguma forma, Deus está cuidando dele, e portanto não há nada a temer. Mas essa não era a visão de Jacó: ao contrário, Jacó estava certo que José havia sido devorado por um animal selvagem qualquer, e que seus demais filhos estavam lhe contando a verdade. Neste momento Jacó tem um choque, ao perder o filho que mais amava, gerado da mulher que mais amou.
Jacó coloca-se em luto, atitude absolutamente normal e esperada frente a perda de um filho. No entanto esse luto não se trata de um luto como um processo de desligamento progressivo de um ente que morreu: esse luto era algo decidido por Jacó a durar todo o resto de sua vida. O versículo que abriu esse texto registra claramente que Jacó decidiu ficar em estado de luto e assim permanecer até o momento em que desceria ao Sheol para juntar-se ao seu filho. E, de fato, é isso que observamos quando ainda em Gênesis 45:26-28, após todo o processo vivido, Jacó custa a acreditar na revelação de que José estava vivo. Entretanto, quando o faz, toma a decisão de ir imediatamente ver seu filho "antes de morrer". Isso fica bem claro em Gênesis 46:30 onde Jacó, abraçado a José, diz: "Agora, pois, já posso morrer em paz, porquanto vi o teu rosto e sei que ainda estás vivo!" Enfim, o luto de Jacó acabou e o propósito inicial de ir ao sepulcro em luto já não fazia mais sentido.
Vale lembrar que José foi vendido como escravo quando tinha em torno de 17 anos. Aproximadamente com 25 anos foi preso pela falsa acusação de tentativa de estupro e aos trinta anos revelou o sonho do Faraó tornando-se governador do Egito. Passou os sete primeiros anos de seu governo trabalhando para acumular os mantimentos que, ao longo dos outros sete anos seriam necessários para a sobrevivência. É razoável supor que o encontro entre José e seus irmãos tenha ocorrido no segundo ano da escassez, tendo então José por volta de 39 a 40 anos de idade. Logo, Jacó viveu seu luto por um tempo aproximado de 27 anos até finalmente descobrir que seu filho estava vivo e reencontrá-lo.
Os textos Sagrados não registram e até por isso tomo a liberdade de imaginar que Jacó passou por momentos difíceis. Aquele homem, outrora cheio de experiências com Deus, agora estava triste, talvez em um estado melancólico, sem ânimo e sem alegria de viver. Posso imaginar que seu luto o tornava alguém amargo, apático e indiferente. Posso supor ainda que até mesmo sua vida espiritual pode ter entrado em crise, haja vista que nesse tempo todo Deus não se manifesta a ele e a Bíblia não registra nenhum ato de culto ou adoração à Deus por parte de Jacó. Não é forçoso acreditar que Jacó tenha se entregado a uma vida monótona. Estamos falando de um homem que gozava de uma intimidade ímpar com Deus, e que teve experiências além do comum. Podemos citar várias passagens onde Deus manifesta-se a Jacó, trazendo a ele alguma mensagem, promessa, bênção ou até mesmo livramentos. Vejamos algumas:
- Gênesis 28:10-22 - Jacó tem o sonho com a escada, onde Deus revela-se e promete a ele a terra onde ele repousa.
- Gênesis 31:3 - O Senhor apresenta-se a Jacó e o orienta que ele volte à terra dos seus pais, prometendo estar com ele.
- Gênesis 31:11-13 - O Senhor envia um anjo a Jacó para tranquilizá-lo sobre as trapaças de Labão e o orientando a voltar para a terra dos seus pais.
- Gênesis 32:23-33 - Jacó "luta com um homem" até ao raiar da alvorada, este "homem" abençoa Jacó e muda seu nome para Israel.
- Gênesis 35:01 - O senhor orienta Jacó a subir a Betel para ali habitar.
- Gênesis 35:09-13 - O Senhor novamente abençoa Jacó e confirma sua mudança de nome para Israel.
Considerando todo o exposto até aqui a pergunta que me vem a mente é: Por que Deus silenciou esse tempo todo? Por que Deus, nesses 27 anos observando Jacó em seu profundo sofrimento e em um luto deliberado e vitalício, não deu sequer um sinal, uma revelação, uma mensagem que pudesse tranquilizar Jacó em relação a José? É então que precisamos considerar alguns pontos importantes para entender o silêncio de Deus neste caso, quais sejam:
1) Deus é Soberano e na sua soberania ele faz as coisas como deseja:
Sim, o Eterno Deus é Soberano, Único e Majestoso, Aquele que criou toda a existência e a submete sob sua vontade e seu controle. Poderia elencar muitos textos, mas o de Isaías 45:5-7 resume bem essa verdade:
"Eis que Eu Sou Yahweh, o Senhor, e não existe nenhum outro; além da minha pessoa não há Deus! Eu te cinjo e te concedo poder, ainda que não percebas quem sou.
Para que saibam todos, que do nascente ao poente, não há ninguém além de mim. Eu Sou o Eterno, e não existe nenhum outro!
Eu formo a luz e crio as trevas; mando as bênçãos e as maldições; Eu, Yahweh, faço absolutamente tudo!"
Não obstante todo o amor e prioridade que Deus manifestou ao ser humano, não devemos esquecer nossa posição diante dele: somos apenas barro na mão do oleiro! Não é prudente que o barro exija um parecer do seu oleiro, ou cobre-lhe explicações.
"... Porventura o barro pode reclamar ao oleiro: 'Que é isto que está modelando?' Será que a obra que fazes pode protestar: 'Tens experiência? mostra as tuas mãos!" Isaías 45:9
Em outra passagem das Escrituras, após alguns posicionamentos de Jó, o Senhor o faz lembrar de sua insignificância e o lugar que Jó ocupa nessa relação:
"Onde estavas, quando lancei os fundamentos da terra? Dize-mo, se é que sabes tanto." Jó 38:4
Diante dos textos acima posso concluir, com segurança, que o Eterno não tem qualquer obrigação de se explicar. Ele é o Soberano e está acima de todas as coisas, portanto não há nada que ele deva justificar e a ninguém que deva prestar contas. Ao contrário, nossa fé em Deus deve estar acima daquilo que não conseguimos entender.
2) Deus tem propósitos e estes são perfeitos:
Para aquele que crê no Eterno, uma coisa deve estar bem clara: Deus está no controle de todos os acontecimentos, por mais difíceis de se compreender, pois estão cumprindo um propósito maior do que podemos imaginar.
Embora na passagem específica de José e Jacó toda essa trama tenha se originado em função da crueldade dos irmãos de José, que por inveja queriam tirá-lo do foco de seu pai Jacó, todavia Deus ainda estava no controle. É claro que Deus não compactua com o mal e que a trama elaborada pelos irmãos de José se originou da própria natureza decaída de cada um deles. No entanto, Deus permanece acompanhando todo o processo e atuando para que, dessa crueldade, possa haver bênção no futuro.
Muitas vezes (para não dizer sempre) temos dificuldade em entender certas situações, justamente pelo fato de sermos limitados ao tempo e ao espaço. Mas Deus, que é Eterno, não está preocupando com estas coisas: seu olhar e atuação transpassa a eternidade. Para o Eterno nada é tão breve para não ser acompanhado em detalhes ou demasiadamente longo que não seja considerado ínfimo.
José, inicialmente feito escravo no Egito, era aquele a quem Deus confiaria uma função extremamente importante de administrar a produção da terra para, posteriormente, poder alimentar não somente o próprio Egito, mas todos os povos do seu entorno no período de grande fome sobre a terra.
Ninguém poderia imaginar tal feito. Jacó, como vimos, tinha por certo que seu filho estava morto. Os irmãos de José, após muito tempo, também já davam José como morto. José não tinha absolutamente nenhum sinal ou ideia a que posto seria colocado e a importância do seu trabalho e da autoridade que lhe seria confiada para a preservação de tantas vidas, inclusive da família da qual herdaríamos a fé!
Deus transformou algo tão vil, como a traição e venda de José por seus irmãos, em algo que mudaria a história de todos os envolvidos diretamente na trama, e também a nossa, vez que a manutenção da família de Jacó era essencial para o cumprimento da vontade absoluta do Eterno de fazer de sua família uma grande nação, berço do Messias e portanto da nossa fé! Se o Eterno havia prometido a Jacó uma terra e uma descendência, ele cumpriria:
Sei que podes realizar tudo quanto desejares; absolutamente nenhuma das tuas ideias e vontades serão frustradas! Jó 42:2
3) Deus trabalha no ser humano através das situações que são apresentadas:
Como dito no tópico anterior, Deus não compactua com a maldade e não está onde o pecado habita. No entanto, embora escrito em outro contexto, vale lembrar que o texto de 1 Coríntios 1:20 declara que o Eterno frustra a sabedoria dos sábios e faz perecer o entendimento dos homens cultos.
A família de Jacó era descompensada em muitos aspectos: a primeira mulher de Jacó sentia-se rejeitada pelo marido, a segunda e irmã da primeira era a preferida de Jacó. José era o filho querido de Jacó justamente por ser o primogênito da mais amada, e Benjamin também tinha uma certa preferência em relação aos demais, também por vir da dileta. Além disso teve filhos com outras duas mulheres.
Jacó não conseguia perceber que a demonstração pública de seu afeto por José causava ciúmes entre os demais. José, na sua inocência, não conseguia compreender que seus irmãos lhe tinham ciúmes e dividia com eles tudo o que lhe era revelado em sonhos ou as benesses oriundas de seu pai. Por fim, ao contar-lhes seus sonhos, não só os irmãos como o pai o repreenderam, pois ninguém estava disposto a reconhecê-lo superior. Enfim, quanta confusão!!!!
Nesse período todo entendo que Deus trabalhou em diversas frentes, a saber:
Em José: com as regalias promovidas pelo seu pai, talvez José estava sendo mimado demais... desde o seu nascimento era o preferido e gozava certa proeminência. Penso que mesmo um homem de caráter sólido poderia ter sua humildade comprometida se essa situação não entrasse em equilíbrio. Era necessário que passasse por uma "escola" de humildade contando com matérias como períodos de escravidão e prisão, para moldar o seu caráter antes de assumir o posto para o qual o Eterno lhe chamou. Agora sim, José poderia assumir o Governo do Egito com a tranquilidade de que não usaria do seu cargo em benefício próprio, e nem o faria de modo soberbo ou arrogante, considerando que tal posição era parte de um projeto divino que excedia qualquer glória temporal.
Em Jacó: com sua política de eleição do filho querido, Jacó dava menos atenção aos demais filhos, e não atentou-se que estes seriam a continuidade da sua descendência e da promessa que Deus fizera ao seu avô Abraão e ao seu pai Isaque. Estes filhos se tornariam as tribos de Israel, portanto não deveriam ser menosprezados em favor de apenas um filho. Jacó considerava que José era especial (não nego que era), mas essa constatação fez de Jacó um pai omisso para com os outros filhos. Jacó estava aprendendo, mesmo que em seu luto decidido, a conviver, manter a harmonia e valorizar a convivência junto dos seus outros filhos.
Nos irmãos de José: o ciúme e a disputa natural entre irmãos pela atenção dos pais, nesta família tomou proporções inimagináveis. Ao ver José preferido pelo pai, o temor de que o primogênito fosse colocado de lado na condução da família e de que somente os filhos de Raquel herdassem o melhor do pai, bem como a dificuldade de reconhecer em José as qualidades que eles não tinham, levou esses homens a cometer o ato mais vil que foi o de vender o próprio irmão como escravo. Com o passar dos anos imagino que este ato vil, somado à mentira ao pai que o fez cair em uma tristeza profunda, colocou um remorso tão grande na vida desses homens que só foi superado e reconhecido quando estes mesmos homens, diante do governador do Egito, propuseram entregar a própria vida para poupar a vida de Benjamin, considerando que o pai não aguentaria mais essa perda (Gênesis 44:19-34). Finalmente o arrependimento do primeiro ato seguido da correção de rota na segunda oportunidade.
Conclusão
Retomando aos questionamentos feitos no início do texto, posso concluir com segurança que o silêncio de Deus não significa abandono. O Eterno não está indiferente ao sofrimento de um servo seu, tampouco se deleitando no sofrimento humano. Deus está trabalhando para que os erros de percurso que nós mesmos cometemos seja, de alguma forma, convertido em bênção. Está trabalhando no nosso caráter e nos preparando para algo melhor. Neste período, o silêncio de Deus é pedagógico e faz parte do processo de ajustes e crescimento.
Nem todas as dificuldades e lutas que passamos na vida estão claramente explicadas diante de nós. Estamos limitados ao tempo e ao espaço da vida terrena e não temos a visão das coisas futuras. Isso, a priori, pode nos causar um sentimento de medo ou até mesmo sensação de solidão. No entanto, devemos ter a firme convicção de que Ele está no controle de tudo, que Ele sabe o que faz e que todas as coisas cooperam para o nosso bem (Romanos 8:28).
Por fim, Paulo resume bem a postura ideal de um cristão durante as lutas dessa vida:
"...nos gloriamos nas tribulações, porque aprendemos que a tribulação produz perseverança; a perseverança produz um caráter aprovado; e o caráter aprovado produz confiança." Romanos 5:3-4
Que o Eterno nos ajude a manter essa postura diante das lutas que enfrentamos, na certeza de que Ele continua cuidando de nós!