O Apóstolo Paulo está aqui, primeiramente, estabelecendo uma diferença entre a habitação de Deus com seu povo antes de Cristo e a habitação de Deus entre seu povo depois de Cristo. Moisés subiu ao monte Sinai, onde falou face a face com Deus e recebeu do Senhor os "Dez Mandamentos" (Êxodo 24:12). Desde então o Monte Sinai ficou conhecido como o Monte do Senhor, a habitação do Senhor.
Muitos séculos depois o rei Salomão construiu o Templo sobre o monte Sião, em Jerusalém, e esse templo foi consagrado ao Senhor, passando a ser o local de Sua habitação (1 Reis 8:13). Essa referência da "presença de Deus" no Templo foi tão marcante entre o seu povo, que os judeus que não moravam em Jerusalém compareciam, ao menos uma vez por ano, para no Templo prestarem culto (1 Samuel 1:21).
Ambos, Sinai e o Templo, eram referências da presença e habitação de Deus. Isso ficou tão gravado no coração dos judeus que, até os dias de hoje, muitos oram e choram na única parte do templo que ainda está de pé, o conhecido Muro das Lamentações.
Com a vinda do Messias, do nosso Salvador, sua morte e ressurreição alteram esse paradigma. Agora, essa presença de Deus não se limita mais a um monte, seja o Sinai ou seja o Sião; agora essa presença se estabelece no próprio Cristo ressurreto.
Com seu corpo ressuscitado, Cristo tornou-se o lugar da habitação de Deus e do seu novo culto. Em Jesus cumpre-se aquela profecia estabelecida em Ezequiel 37:27: "E o meu tabernáculo estará com eles, e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo."
Paulo afirma em 1 Coríntios 12:27 que somos "corpo de Cristo, e seus membros em particular". Portanto, se Cristo é a habitação do Senhor e o lugar de seu novo culto, logo nós, membros do corpo de Cristo somos também templo de sua habitação e presença, conforme Paulo afirma em 1 Coríntios 3:16: "Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?"
Assim como o Templo de Jerusalém sucedeu o Monte Sinai, assim a Igreja de Cristo sucede o Templo de Jerusalém. Hoje, a Igreja é o sinal da habitação do Senhor nessa Terra, é o sinal do governo de Deus sobre o mundo. O próprio Senhor Jesus já havia nos garantido que "onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou no meio deles" Mateus 18:20.
Em Jesus o antigo culto, centrado em um espaço físico e em um lugar geográfico, agora passa a dar lugar ao novo culto, que é centrado na pessoa de Jesus. Uma vez centrado na pessoa de Jesus ressurreto, o culto assume uma nova dimensão.
Nessa nova dimensão o culto no templo físico passa ser apenas o ápice de um culto que deve ocorrer 24 horas por dia. O culto verdadeiro e aceitável somos nós mesmos, enquanto agentes de adoração e de amor. O culto espiritual (ou culto racional, como preferir) é a oferta de uma vida completamente voltada para a vontade de Deus, de busca pela santidade e do exercício do amor e da misericórdia. O Profeta Oséias já havia traduzido essa vontade de Deus para seu povo quando profetizou: "Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos." Oséias 6:6
Isto posto, Paulo recomenda que ofereçamos ao Senhor nossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável, chamando esse movimento de "culto espiritual" (tradução da Bíblia de Jerusalém, porém algumas traduções como a JFA traduz como "culto racional". Na verdade, o adjetivo "espiritual" traduz o grego logikos, que significa "eloquente", "razoável" e "lógico").
Cientes disso eis o desafio: como podemos traduzir esse "culto espiritual" de forma prática? A Bíblia responde:
1) Amando a Deus de todo nosso coração e o próximo como a nós mesmos (Mateus 22:37-40). Seria completamente incoerente frequentar uma Igreja, intitular-se religioso (batista, presbiteriano, luterano, etc) se esse culto não for recheado do amor por Deus e por sua Palavra. Sem esse vínculo de amor com o Senhor o relacionamento com Deus torna-se vazio em si mesmo, e o Senhor não o aceita, assim como rejeitou a oferta de Caim (Gênesis 4:5).
Amar o próximo é condição básica para aqueles que amam ao Senhor, pois é através do amor ao próximo que a luz de Cristo brilha através daqueles que o servem. De que adianta servir ao Senhor se no dia a dia matamos as pessoas com a indiferença, com a falta de perdão, com a falta de reconhecimento ou até mesmo investindo contra o próximo?
2) Mantendo nosso corpo ser distante do pecado e da impureza, considerando que somos seres holísticos e não dicótomos ou tricótomos. Sim, somos seres inteiros diante de Deus, e quando pecamos, o fazemos contra Deus. Não podemos separar o pecado tido como da "carne" (prostituição, impureza, lascívia, etc) como se estes fossem pecados inferiores aos supostos "pecados da alma" (mágoa, ressentimentos, desejos maus e intenções perversas), posto que o homem não está separado entre corpo e alma (dicotomia) ou corpo, alma e espírito (tricotomia), mas o homem é um ser inteiro, composto de corpo (barro) e espírito (sopro de Deus), tornando-se alma vivente. Portanto, o pecado, qualquer que seja, macula e desfigura a presença de Deus em nossas vidas. Embora hoje sejam raras as pregações sobre isso, o cristão, que é templo do espírito de Deus, deve continuar a posicionar-se na defesa de valores inegociáveis. Como exemplos de valores inegociáveis estão a virgindade antes do casamento, a santidade dentro do casamento, o repúdio ao aborto, a preservação do próprio corpo de modismos que o desfiguram, entre outros.
3) Testemunhando a Cristo e sua obra redentora sempre. Testemunhar a Cristo é intrínseco ao verdadeiro convertido, pois seu comportamento ético no relacionamento com as pessoas, e os frutos gerados de seus atos denunciam que ele é (Mateus 7:20). O cristão "denuncia" sua fé muito mais com suas ações do que com suas palavras.
4) Fazendo parte de uma Igreja Local. Sim, quando o amor do crente por Deus é verdadeiro e sincero, ele engaja-se em uma Igreja local, uma Igreja verdadeiramente comprometida com a Palavra de Deus, para então vivenciar o ápice de seu relacionamento com Deus tornando-se membro do corpo de Cristo, como já citado. Sem essa união e compromisso com a Igreja de Cristo, o cristão está "fora" da oliveira, e galho sem seiva seca e morre.
Em um mundo que jaz no maligno (1 João 5:19), cujos valores mais sagrados como família, amor e respeito estão constantemente perdendo espaço e tornando-se "fora de moda", que possamos renovar as nossas mentes em Cristo e manter nosso culto espiritual à Deus.
Que o Senhor nos abençoe com Sua Palavra.
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Homilia realizada pelo Diácono Thiago I. Pendo no culto de oração de 20/11/2015, na Igreja Batista de Sião.

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