"Com efeito, também Cristo morreu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, a fim de nos conduzir a Deus. Morto na carne, foi vivificado no Espírito, no qual foi também pregar aos espíritos em prisão, a saber, aos que foram incrédulos outrora, nos dias de Noé, quando Deus, em sua longanimidade, contemporizava com eles, enquanto Noé construía a arca, na qual poucas pessoas, isto é, oito, foram salvas por meio da água." I Pedro 3:18-20 (Bíblia de Jerusalém)
Com base no texto acima muitas pessoas afirmam que, entre a morte e a ressurreição, Jesus "desceu ao inferno" para pregar aos "espíritos em prisão". Entretanto será que é isso mesmo que o texto quer dizer? Teria mesmo Jesus descido ao inferno para pregar aos "espíritos" dos antigos? Isso é o que passaremos a analisar agora.
Para realizar a análise do texto proposto, faremos uso das seguintes ferramentas:
1) Regra hermenêutica;
2) Os espíritos em prisão;
3) Situação dos mortos;
4) A realidade da ressurreição;
5) A posição de Cristo;
6) Conclusão
1) REGRA HERMENÊUTICA
Primeiramente, precisamos definir o termo "hermenêutica". Hermenêutica é um ramo da filosofia que estuda a teoria da interpretação, que pode referir-se tanto à arte da interpretação, ou a teoria e treino de interpretação¹. No estudo das Sagradas Escrituras, uma hermenêutica saudável implica em utilizar, principalmente dois recursos: O primeiro é interpretar o que o texto realmente significa, enquanto que o segundo é utilizar o método de associação dos textos, ou seja, associar o texto analisado com outros, nas Sagradas Escrituras, para chegar a alguma conclusão. Portanto, a primeira coisa a fazer é analisar o próprio texto de I Pedro 3:18-20. Se analisarmos o versículo 18, teremos:
"Com efeito, também Cristo morreu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, a fim de nos conduzir a Deus. Morto na carne, foi vivificado no Espírito,..."
Até aqui o texto está dizendo apenas que Cristo morreu uma única vez pelos pecados, com o objetivo de nos salvar e nos conduzir de volta ao Pai. Em seguida o texto continua: "Morto na carne, foi vivificado no Espírito,". Pronto, até aqui o texto apenas fala que o Espírito, em referência ao Espírito Santo, foi quem ressuscitou a Jesus.
Jesus foi ressuscitado pelo Espírito Santo, e não por ele mesmo, porque embora sendo o próprio Filho de Deus, ele morreu e, enquanto morto, por si só não poderia vencer a morte se não fosse a atuação do Espírito Santo, que é o próprio Deus.
Depois disso o texto continua: "no qual foi também pregar aos espíritos em prisão, a saber, aos que foram incrédulos outrora, nos dias de Noé,...".
A palavra "no" é uma contração de preposição "em" com o artigo ou pronome "o". Isso quer dizer que a palavra no significa "em o qual", fazendo referência de como Jesus pregou aos "espíritos em prisão". Se pararmos até aí ainda não justificamos que Ele não desceu ao inferno. Porém o texto continua: "foi também pregar aos espíritos em prisão, a saber, aos que foram incrédulos outrora, nos dias de Noé".
Agora resta saber quem são os espíritos em prisão.
2) OS ESPÍRITOS EM PRISÃO
O texto afirma: "foi também pregar aos espíritos em prisão, a saber, aos que foram incrédulos outrora, nos dias de Noé" (grifo meu). Os espíritos em prisão, portanto, são os "antediluvianos", ou seja, aquele povo que viveu até a época de Noé, e que foi condenado a morrer no dilúvio.
Mas ainda assim resta uma dúvida: de que prisão o texto está falando? Quem são esses espíritos que estavam aprisionados? Ora, não podemos esquecer que, uma vez fora do jardim, a humanidade ficou sob o julgo do pecado. Portanto, todos estão aprisionados pelos seus próprios pecados (Pv. 5:22)
Seguindo esse princípio, concluímos que Cristo, através do mesmo Espírito que o ressuscitou, ou seja o Espírito Santo, pregou aos antediluvianos na época de Noé, sendo Noé o portador da mensagem da salvação, enquanto Cristo, através do Espírito Santo, anunciava o "pecado, a justiça e o juízo". Cristo não pregou a pessoas mortas, mas a pessoas VIVAS, que estavam sob as cadeias do pecado na época de Noé.
Uma outra tradução da Bíblia nos deixa mais clara essa interpretação, vejamos:
"Cristo também sofreu. Ele morreu uma vez pelos pecados, o justo pelos pecadores, para levar-nos a Deus. Foi morto fisicamente e tornou a viver pelo Espírito. E foi no Espírito que visitou e pregou aos espíritos em prisão, os daqueles que já antes recusaram obedecer a Deus, apesar da paciência com que Deus esperava, enquanto Noé construia a arca, na qual apenas oito pessoas se salvaram da morte no dilúvio" 1 Pedro 3:18-20 (Tradução "O Livro", a Bíblia para todos)
Essa tradução deixa bem separado os dois momentos no qual o texto faz referência. O primeiro momento Pedro fala da Ressurreição, e que essa se deu pelo Espírito. O segundo momento Pedro fala que foi no Espírito que, no passado (na época de Noé) Jesus pregou aos que estavam presos em cadeias do pecado, enquanto Deus era paciente com aquele povo, e o tempo de sua paciência foi o tempo que Noé levou para construir a arca.
3) A CONSTITUIÇÃO DO SER HUMANO
“E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem tornou-se uma alma vivente” (Gênesis 2:7)
Ao contrário do que muitos entendem, o ser humano não é um ser dicótomo ou tricótomo, mas um ser holista. A separação que a Bíblia faz entre corpo, alma e espírito é apenas pedagógica e didática. Isso pode ser facilmente verificado no texto de Gênesis 2:7. Lucas Banzoli em seu Livro "A Lenda da Imortalidade da Alma", ilustra bem o entendimento holístico do ser humano utilizando o mesmo texto de Gênesis 2:7, da seguinte forma:
“E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra [corpo], e soprou em suas narinas o fôlego de vida [espírito], e o homem tornou-se uma alma vivente [alma]” (Gênesis 2:7)²
Portanto, o ser humano é um ser holístico, inteiro e não dividido em pessoas que existem independente umas nas outras. Alma vivente nada mais é que um ser formado pelo corpo físico e o fôlego da vida. Se retirarmos qualquer um dos elementos dessa "equação" já não temos um ser, mas apenas elementos que constituem esse ser.
O Pastor Antônio aborda essa questão no livro "Nisto Cremos" quando afirma: "É importante elucidar que, a alma humana é o que diferencia de outras criaturas, pois quando pensamos nela estamos pensando nos seus desdobramentos, tais como consciência, capacidade cognitiva de elaborar ideias, sua capacidade de pensar, de articular, de dar nomes aos outros seres, e tudo isso, para coroá-lo, Deus lhe constituiu ainda com a linguagem, meio pelo qual o homem exterioriza todos esses processos mentais que lhe compreende a alma. Contudo houve uma fusão entre a matéria e a alma; essa fusão faz do homem um ser biopsicológico." (grifo meu)³
Portanto, a Bíblia não dicotomiza ou tricotomiza o homem, mas o trata como um ser holístico, ou seja, formado em sua totalidade e não dividido em cada um de seus elementos.
3) SITUAÇÃO DOS MORTOS
Uma vez que já entendemos que a Bíblia não divide o homem em estados diferentes, mas que o trata de forma holística, precisamos então analisar agora a situação dos seres humanos enquanto mortos. Começando pelo Antigo Testamento, utilizando o método de associação dos textos, fundamental para uma hermenêutica saudável, precisamos ver o que a Bíblia diz a respeito dos mortos.
No Antigo Testamento a Bíblia afirma em Eclesiastes 12:7: "o pó volte à terra, de onde veio, e o espírito volte a Deus, que o deu." Veja que o texto se limita a explicar que o corpo volta a terra, elemento de sua origem, enquanto que o Espírito, aquele sopro de vida dado por Deus, volta a Ele, uma vez que Ele é o possuidor da vida. Portanto, o texto nada afirma sobre consciência após a morte, mas também não a nega. Então vamos analisar o que outros textos do Antigo Testamento afirmam.
O próprio livro de Eclesiastes 9:5 afirma: "Pois os vivos sabem que morrerão, mas os mortos nada sabem; para eles não haverá mais recompensa, e já não se tem lembrança deles." (grifo meu). Veja que o texto afirma que os mortos nada sabem, o que dá a clara ideia de que eles estão em um estado intermediário de inconsciência. Essa ideia pode ser confirmada ainda com o texto de Salmos 6:5 que diz: "Quem morreu não se lembra de ti. Entre os mortos, quem te louvará?" Veja que o texto afirma que os mortos não se lembram de Deus e que não podem louvá-lo.
No Novo Testamento os textos ratificam o pensamento exposto no AT. Em João 6:40 a Bíblia afirma: "De fato, a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia”. Ora, aqui vemos duas coisas importantes: A Vida Eterna e a ressurreição do último dia. Segundo o texto, a Vida Eterna não é uma condição que os seres humanos possuem por princípio. Essa será a herança daqueles que creem no nome do no Filho e não de todos os seres humanos. Não vou aqui, nesse pequeno texto, aprofundar sobre a interpretação da vida eterna, mas o que deve ficar claro é que essa Vida só terá aqueles que creem em Jesus.
Outra coisa que o texto deixa bastante claro é sobre a ressurreição. Veja que a ressurreição é uma promessa de Cristo para os que nele creem, e é à partir dela que os que creem herdarão a Vida. Portanto, ainda que sejamos herdeiros dessa Vida, a posse dela se dará apenas na ressurreição. Até lá permanecemos mortais, e uma vez mortos, estamos inconscientes.
Para fechar esse tópico, podemos nos lembrar da situação de Lázaro. O texto de João 11:43-44 dispõe:
"Depois de dizer isso, Jesus bradou em alta voz: "Lázaro, venha para fora!" O morto saiu, com as mãos e os pés envolvidos em faixas de linho, e o rosto envolto num pano. Disse-lhes Jesus: "Tirem as faixas dele e deixem-no ir". João 11:43,44
Duas coisas muito importantes de se observar nesse texto. A primeira seria o caso da tese da imortalidade da alma ser verdadeira. Neste caso, Lázaro, que era amigo pessoal de Jesus, estaria no céu com o Pai após sua morte, correto? Ou alguém arrisca dizer que Lázaro, amigo pessoal e querido de Jesus, seria mandado ao inferno? Pois bem, sigamos. Entendendo que Lázaro estava no céu, qual sentido faria Cristo trazê-lo de volta através da ressurreição? Se Lázaro estivesse em um lugar melhor, Cristo não teria chorado sua morte, tampouco o teria ressuscitado. Jesus teria se limitado a dizer a Marta: "Fique em paz Marta, nesse momento Lázaro anda pelas ruas de ouro, cantando no coral celestial junto ao Pai." Não foi isso que Cristo disse! Ao contrário, Ele disse: "Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim, não morrerá eternamente. Você crê nisso?" João 11:25,26
Outro detalhe importante: ao ressuscitar Lázaro não testemunhou a ninguém o que viu no céu. Não existe uma só palavra ou texto nas Sagradas Escrituras onde Lázaro conta sua "experiência" de vida após a morte. E sabe por que? Porque a única experiência que Lázaro teve após a morte foi a inconsciência.
Portanto, a Bíblia Sagrada afirma que os mortos estão inconscientes, e em momento algum a Palavra de Deus afirma que os mortos estão gozando alguma vida extracorpórea.
4) A REALIDADE DA RESSURREIÇÃO
Como já abordado no tópico anterior, a ressurreição é uma realidade. Ela ocorreu no Antigo Testamento, quando o profeta Elias orou ao Senhor pedindo que o Senhor ressuscitasse o filho da viúva que o hospedara. A Bíblia diz: "O Senhor ouviu o clamor de Elias, e a vida voltou ao menino, e ele viveu." I Reis 17:22
No Novo Testamento, a ressurreição de Jesus é mais do que certa. Assim que Cristo ressuscitou, muitos "santos" também ressuscitaram e entraram na cidade e apareceram a muitos: "E, saindo dos sepulcros, depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos." Mateus 27:53
Portanto a ressurreição é uma realidade incontestável e nossa maior esperança enquanto cristãos, pois é somente através dela que entraremos na Vida que nos está preparada. Separar a Vida Eterna da Ressurreição seria ferir "de morte" a boa interpretação das Sagradas Escrituras.
O Apóstolo Paulo, combatendo alguns que em Corinto estavam pregando contra a ressurreição dos mortos afirmou:
"Ora, se está sendo pregado que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como alguns de vocês estão dizendo que não existe ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos mortos, então nem mesmo Cristo ressuscitou; e, se Cristo não ressuscitou, é inútil a nossa pregação, como também é inútil a fé que vocês têm." 1 Coríntios 15:12-14 (grifo meu)
Paulo está dizendo que se a ressurreição não ocorre, logo a fé é vã. Veja que Paulo liga a ressurreição de Cristo à razão de nossa fé. Portanto, se Cristo não ressuscitou, nossa fé, nosso trabalho, nossa pregação seria em vão. E mais, Paulo ainda afirma:
"Neste caso, também os que dormiram em Cristo estão perdidos." 1 Coríntios 15:18
Ou seja, se Cristo não ressuscitou, os que morreram crendo n'Ele estão perdidos. Ora, se a ressurreição não fosse necessária para a entrada na Vida, Paulo não teria dito o contrário? Paulo não teria dito que todos os que morreram em Cristo já estariam gozando da paz celestial? Mas não foi isso que Paulo disse. Paulo vinculou a necessidade da ressurreição à herança da Vida Eterna. Sem ressurreição, segundo o Apóstolo Paulo, não há vida eterna.
Para concluir esse tópico, a ressurreição é condição "sine qua non" para a entrada na vida. Sem a ressurreição não haverá Vida.
5) A POSIÇÃO DE CRISTO
Sabemos que Cristo é o Filho de Deus, e o próprio Deus conosco. Veja que o Evangelho de João afirma em 1:14: "Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade."
Cristo é o próprio Deus. Segundo a interpretação da Santíssima Trindade, Jesus é a segunda pessoa da Trindade. Ou seja, Ele é o Filho de Deus enquanto suas atribuições e missão específicas. Porém ele é o próprio Deus, pois faz parte de uma mesma essência, de um mesmo ser: O Senhor Jeová.
O próprio Jesus afirmou em João 10:30: "Eu e o Pai somos um". Em outra oportunidade Jesus disse:
"Eu lhes afirmo que antes de Abraão nascer, Eu Sou!" João 8:58
Veja que Jesus afirma ser o "Eu Sou", mesma identidade de Jeová ao se apresentar a Moisés em Êxodo 3:14: Disse Deus a Moisés: "Eu Sou o que Sou. É isto que você dirá aos israelitas: Eu Sou me enviou a vocês".
Portanto, Jesus é o Filho de Deus enquanto missão de Salvar a humanidade e de interceder por ela ao Pai, porém Ele é o próprio Deus, mesma essência.
Assim sendo, Jesus é o possuidor de todas as coisas. Ele é glorioso, santo e Eterno com o Pai, e sua Justiça é perfeita. Confesso que tenho dificuldade de entender que Jesus estaria em um lugar que foi preparado para os anjos rebeldes, conforme afirma o texto de 2 Pedro 2:4: "Pois Deus não poupou os anjos que pecaram, mas os lançou no inferno, prendendo-os em abismos tenebrosos a fim de serem reservados para o juízo." (grifo meu).
Logo concluo que Jesus não passaria sequer um minuto no inferno, pois Ele, embora tenha domínio também sobre o inferno, jamais estaria lá (atenção, essa é minha interpretação, ok?).
6) CONCLUSÃO
Concluo portanto que Cristo não esteve no inferno pregando aos espíritos em prisão, mas o que Pedro disse em 1 Pedro 3:18-20 é que Cristo esteve, pelo Espírito, pregando aos vivos, que não deixam de ser "espíritos em prisão" na época de Noé: os antediluvianos.
Essa conclusão, além de tudo o que já foi exposto nos tópicos acima, também leva em consideração que o momento de aceitar a Jesus é em vida. Não há qualquer possibilidade de salvação após a morte, conforme afirma o texto de Hebreus 9:27:
"Da mesma forma, como o homem está destinado a morrer uma só vez e depois disso enfrentar o juízo..."
--
Referências:
¹O Círculo Hermenêutico - https://ensaiosenotas.wordpress.com/2014/11/20/o-circulo-hermeneutico-para-leituras-criticas/ (Acessado em 12/10/2015 às 13:30)
²A Lenda da Imortalidade da Alma, página 52.
³ Nisto Cremos, página 198.
Bíblia de Jerusalém
Bíblia versão "O Livro"
Bíblia NVI

Muito bem construído o pensamento digno de publicação. Foi claro, objetivo e seguiu a regra de interpretação segundo Dilthey: compreensão e explicação. Esse método de Dilthey se opõe ao método cartesiano para assegurar que uma boa compreensão é fundamental para a verdade do que os textos querem dizer. Portanto com caráter de cientificidade. Parabéns.
ResponderExcluir